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Viver o carisma Verbum Dei no trabalho (testemunho 2)

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Tenho, ao longo da minha vida, procurado junto de Deus, qual a Sua vontade para mim, qual o meu lugar neste mundo, de que forma sonha o Pai que concretize o viver como sua filha e irmã de todos os homens. Onde dedicar-me, onde gastar energias, como viver de tal forma que a minha vida beneficie o maior número possível de pessoas?

Pouco a pouco, e por vários caminhos, e repetidas vezes, o Senhor leva-me ao mesmo lugar: a maior fecundidade da minha vida radica na qualidade do Amor que viva. As mudanças radicais, pessoais, sociais são passageiras se não são fruto de uma conversão do coração; e esta só é possível se continuamente há relação íntima com a fonte inesgotável do Amor.

“É o amor de Deus infundido em nossos corações que deve inspirar e transformar o nosso ser e o nosso agir. Que o cristão não se iluda de poder conseguir o verdadeiro bem dos irmãos, se não vive a caridade de Cristo. Mesmo se conseguisse modificar importantes factores sociais ou políticos negativos, todo o resultado seria efémero sem a caridade” (João Paulo II, Quaresma 2003).

Há medida que a idade avança vamos (eu vou) tendo uma consciência maior do “mal” que há no mundo, dos horrores cometidos pelos humanos, do quanto muitos ainda vivem longe do paraíso sonhado e desejado por Deus para os seus filhos.

Const VD nº50: “ Ante a realidade palpável de uma humanidade dividida e de corações destruídos e vazios pela ausência de Amor e Vida Divina urge-nos... brindar este mundo com o poder do Amor de Deus...”

Como? Por quais caminhos levar o Amor de Deus para o mundo? Desde há anos que me experimento convencida do valor do carisma Verbum Dei como chave para a solução de raíz dos dilemas humanos e sociais.

Const VD nº10: “... a Fraternidade Missionária Verbum Dei... concretiza e centra a sua missão específica na Palavra de Deus: Orar a Palavra, assimilando-a até torná-la vida, transformando-se nela e ensinando-a aos demais, para que a orem, a vivam e a ensinem vivencialmente a outros”.

Descubro como o mais importante este “orar a Palavra “ e deixar que o Deus vivo nela, me transforme, com o seu Amor, os sentimentos e atitudes. Depois, quanto mais experimento os frutos desta vida orientada pelo Seu Espírito mais percebo o que falta naqueles que não o conhecem e como as suas vidas mudariam se o conhecessem! Por isso vou procurando formas de que, os que me rodeiam descubram que, por detrás da minha vida, há um Deus que me sustenta e que está desejoso de ser o seu Deus, para que sejam felizes (Jer 7, 23).

Quanto maior é a corrupção, a desonestidade, o sem sentido, a desmotivação, a loucura no mundo, maior vai sendo o apelo que sinto a viver no meio do mundo, sendo uma presença “contra corrente”, levando para aí o amor de Deus, a sua honestidade, fidelidade, entrega.

LG 41: “...os que vivem entregues ao duro trabalho convém que nesse trabalho humano busquem a sua perfeição, ajudem os seus concidadãos, procurem melhorar a sociedade inteira e a criação e tratem também de imitar, na sua laboriosa caridade, a Cristo...; gososos na esperança, ajudando-se uns aos outros... todos os fiéis cristãos, em qualquer condição de vida, de ofício ou de circunstâncias, e precisamente por meio de tudo isso, se poderão santificar dia a dia, recebendo tudo com fé da mão do Pai, cooperando com a vontade divina, manifestanto a todos... a caridade com que Deus amou o mundo.”

Experimento o enorme desafio a fazê-lo, a ser testemunho claro do seu amor com uma intencionalidade clara: de que não se detenham em mim, mas que nessa postura transpareça o Deus que me anima. Porque descubro como o mais vital o apelo de Jesus: “para que vendo as vossas boas obras glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Porque não basta viver e ver na minha vida os frutos do Amor de Deus; o maior sonho é torná-los acessíveis a todo o ser humano!

Em tudo isto o que mais me perturba e confunde é a infidelidade com que por vezes o vivo, é a forma silenciosa como é vivida a entrega que faz duvidar da sua eficácia, é o longo caminho que tantas vezes tem de ser percorrido até que finalmente o irmão se abra ao conhecimento de Deus e à intimidade gososa com Ele.

Durante o caminho agarro as certezas alimentadas na oração e na comunidade: “a vida que se entrega gera vida”, “cada entrega de amor dá muito fruto”, “Deus agrada-se dos esforços dos humildes”, “se o grão de trigo morrer dará muito fruto”...

Hoje mesmo questionando o valor da minha vida Jesus disse-me: ”Vocês só acreditam quando veêm coisas extraordinárias e milagres” (Jo 4, 48) e, com esta interpelação renovava-me o convite a acreditar na sua “metodologia” de salvação do mundo, que passa muito mais por entregas silenciosas e quotidianas do que por feitos heróicos, daqueles que mais facilmente consideramos heróicos...

Viver tudo isto no trabalho, sendo médica em que se traduz? Como é que o Pai me ajuda a concretizar os desafios expressos nas nossas constituições?

Const VD nº 9: “Poremos todo o nosso empenho em que todos... sejam, se saibam e se sintam irmãos, filhos de um mesmo Pai...”

Const VD nº 52: “...Seremos testemunhas ante o mundo de que, quem conhece e tem este Deus, não pode amar de outra forma do que gratuita e fraternalmente a todos os homens...”

Const VD nº 53: ”...para poder amar a todos... primeiro saborear as coisas do alto e a recompensa do Pai do Céu... ir desenredados de nós mesmos, de pessoas e coisas...”

Const VD nº 19: ”...Transmitimos o que, por Cristo, com Ele e nele, contemplámos. Comunicamos, proclamamos e contagiamos, o que d`Ele ouvimos, experimentámos, vimos, saboreámos e conhecemos... A Vida eterna própria e de muitos depende do contacto, comunhão e transmissão vital que apenas surge da oração e diálogo vivo com Cristo.”

Partilho pequenas experiências dos últimos dias. Recentemente mudei de local de trabalho. Cheguei a um pequeno Centro de Saúde – instalações degradadas, fama de aí se prestarem maus cuidados de saúde, 8 mil utentes sem médico de família, dos tais que vão às 6h da manhã para tentar obter consulta, alguns colegas desmotivados com a profissão...; cheguei aqui, dizia, com algum prestígio – sendo médica com o estatuto inerente face aos outros profissionais da instituição, recomendada pela Directora para ser bem tratada, de forma a garantir que venha a optar por ficar de forma mais definitiva no Centro de Saúde, pois poderei sair, se assim quiser, dentro de 6 meses...

Cheguei com algumas recomendações de colegas mais velhos, recomendações “do mundo”: acabaste uma etapa de tanto trabalho agora não te chateies muito... como talvez seja uma fase transitória não invistas... cuidado com aquela colega que só quer tramar os outros, não te aproximes...

Novo trabalho com uma grande margem de autonomia e independência – pouco controlo do horário de trabalho (aliás quase ninguém o cumpre), nenhum controlo em relação aos conteúdos do que faço (duração da consulta, cuidados prestados aos doentes...); espaços comuns, material sem dono...

Desafios nestas primeiras semanas:

1. Como me coloco ao serviço das necessidades dos doentes em vez de me aproveitar do “poder” do meu estatuto? “Eu vim para servir e não para ser servido”

2. Como me relaciono com os outros profissionais? Como irmã, “filhos do mesmo Pai”, ou mais uma vez servindo-me do meu estatuto e colocando os outros ao meu serviço?

3. Que cuidado tenho com os mais pobres, os mais mal-educados, os desequilibrados, os desmotivados, os marginalizados, os maus?

4. Com que honestidade cumpro o meu horário de trabalho?

5. Com que respeito cuido e uso daquilo que não me pertence mas que é de todos e para bem de todos?

6. Como me disponibilizo para oferecer o que sei ainda que daí surja trabalho acrescido e podendo optar por me calar? “A minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou livremente”

7. Que contágio dou de alegria, de postura positiva, de esperança, de não crítica fácil, de não alimentar más linguas?

8. Como vivo o perdão? Como acolho e facilito o relacionamento? Como contribuo para um bom ambiente?

9. Ir deixando que os doentes me compliquem a vida: gastar tempo com eles, dar-lhes crédito, estudar os seus problemas de saúde, correr o risco de abusarem da minha disponibilidade, ir pedindo ao Pai um olhar empático, compaixão, ajudá-los a recorrer à fé que têm, ir mais além do eles pedem...

Relendo o que escrevi questiono se isto será viver o carisma Verbum Dei. Não sei. Continuo na procura... Talvez seja mais viver como pessoa cristã, filha amada de Deus, mas isso é o meu primeiro compromisso diante de Deus, como pessoa... Para além deste compromisso sei que o Senhor me chama a dá-lo a conhecer também por palavras. Experimento que vou buscando formas de o concretizar fora do local de trabalho mas também nele. Em tudo, a intencionalidade é única mas a forma como se transmite tem que obrigatoriamente ser adaptada à pessoa que se tem por diante. Amar implica não ter pressas, há que preparar o “terreno” .

Const VD nº 54: “a Igreja tem mais necessidade de testemunhos que de mestres e, sobretudo de mestres que sejam testemunhos” – Dá-nos o dom de o podermos ser com humildade!


 

Actualizado em ( Domingo, 24 Janeiro 2010 23:17 )  

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