"Tendo ouvido isto, Jesus retirou-se dali sozinho num barco, para um lugar deserto; mas o povo, quando soube, seguiu-o a pé, desde as cidades. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Este sítio é deserto e a hora já vai avançada. Manda embora a multidão, para que possa ir às aldeias comprar alimento.» Mas Jesus disse-lhes: «Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer.» Responderam: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.» «Trazei-mos cá» - disse Ele. E, depois de ordenar à multidão que se sentasse na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção; partiu, depois, os pães e deu-os aos discípulos, e estes distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, com o que sobejou, encheram doze cestos. Ora, os que comeram eram uns cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças."
Mt 14, 13-21
O primeiro ponto que gostaria de partilhar convosco é a nossa alegria por este momento, pela vossa presença, e a alegria por experimentar que estamos a tomar a direcção que mais sentido e mais plenitude dá à nossa vida, como casal e como família.
Sabemos cada vez melhor que o primeiro convite que escutamos de Deus é o de sermos felizes. É um convite a não estarmos sós, a experimentar a Sua companhia em todos os momentos, a compreender o sentido da nossa existência e a encontrar razões para viver, para amar, para trabalhar e para continuar a sonhar com um mundo melhor.
Quando digo isto, experimento uma certa estranheza, pois estes sonhos de um mundo melhor são coisa de jovens que eu já não deveria ter. Mas temos, precisamente porque Deus renova em nós essa capacidade de continuar a sonhar por um mundo mais justo, mais humano, mais fraterno em que, como no Evangelho, todos ponham o que têm em comum e assim se faça o verdadeiro milagre da partilha e da fraternidade.
O outro convite que experimentamos de Deus é o de cuidar do mundo, das pessoas que a cada momento nos são confiadas. Isto não é por altruísmo ou filantropia. É por acreditar que todos temos possibilidade de felicidade e que Deus só quer isso – o bem do homem e da mulher.
Nós não somos os melhores para esta tarefa de cuidar do mundo, somos apenas alguém que quer responder a esse apelo de Deus com as ferramentas, com os dons que construímos e que outros construíram em nós. Reconhecemos constantemente o grande trabalhão de muitas pessoas na nossa vida e a quem agradecemos: os nossos pais e famílias de origem, a comunidade Verbum Dei e as missionárias, as nossas revisões, os outros casais missionários, etc.
O nosso maior dom, e pelo qual nos sentimos privilegiados, é o de conhecer o segredo para ser felizes. É o tesouro que possuímos. E não faz sentido nenhum não deixar tudo para o seguir; e não faz sentido não o partilhar. Por isso se alguém está com dificuldades venha perguntar. Mas eu dou já algumas pistas – o nosso segredo é ter uma relação pessoal e constante com Deus. Não pode haver nada melhor do que ter ao meu lado, ininterruptamente sempre, um trio (Deus Pai, Jesus e o Espírito Santo) que me conhece, que me ama, que me aceita e me apoia sempre. As palavras são muito curtas para expressar isto. Por isso é uma experiência que tem de ser pessoal.
Por fim, sentimos o desejo de desmistificar esta coisa estranha que é um casal fazer vínculos perpétuos, ser missionário. Não é nada singular, há mais casos, não é irregular, a Igreja aceita-nos e apoia-nos, e não vamos fazer “o pino” à nossa vida. Aliás, quando se entender isto, os casais missionários na igreja vão ser os mais numerosos!
O que estamos a fazer é simplesmente seguir a nossa identidade como cristãos (costumamos dizer, como baptizados) e dedicarmo-nos á missão que Jesus nos confiou – construir o Reino de Deus, construir um mundo melhor. Construir o Reino da forma com que escolhemos viver o Amor com felicidade e para todo a vida – que é o Casamento.
E com os instrumentos que o carisma Verbum Dei nos dá – a oração, a Palavra de Deus e o Testemunho de Vida.
Nós vivemos neste carisma há mais de 20 anos, poderíamos viver sem eles? Sim, mas não seria a mesma coisa!
Para nós o resto é relativo porque aqui está a nossa felicidade e o nosso objectivo de vida – o trabalho é relativo; os hobbies são relativos; o lazer é relativo; até o futebol é relativo… mesmo quando perdemos. Gostamos de tudo isto mas para nós faz sentido centrar a nossa vida na família, no carisma e nas “missões” que nos são confiadas.
Hoje também estamos aqui pelo mundo! Não nos conseguimos conformar com a falta de alegria que vemos no rosto de tantos …
Aquilo que descobrimos e que nos faz unir nesta grande família que é que a Verbum Dei não é nada de novo, tem mais de 2000 anos: é uma pessoa – Jesus de Nazaré!
A Sua vida convence-nos e fascina-nos de tal maneira que queremos dedicar-nos a dá-Lo a conhecer. A Sua lógica, a Sua sabedoria, o Seu Amor é tão atual e tão revolucionário que queremos viver unidos a Ele, para que nos contagie a Sua forma de ver, de amar, de ser!
O lema que escolhemos para esta festa tenta expressá-lo: "Só o Amor é digno de fé"
Estamos todos fartos e cansados de falsas promessas…
Só o Amor é digno de fé – não um amor qualquer, mas como aquele que descobrimos na vida de Jesus, em cada gesto, em cada atitude também em cada palavra Sua.
O Evangelho que escolhemos pode ajudar-nos a entender o que nos sentimos chamados a viver e aquilo em que acreditamos, como Verbum Dei e nós, como casais missionários:
Convido-vos a porem-se na cena…a imaginarem...
"Tendo ouvido isto (que João Batista, o Seu primo acabara de ser asassinado injustamente e cruelmente), Jesus retirou-Se dali sozinho num barco, para um lugar deserto;"
Como se sentiria? Perturbado interiormente? Revoltado? Necessitado de descanso, de Se resituar, de respostas…)
Mas o povo, quando soube, seguiu-o a pé, desde as cidades. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão dá-Se conta de que, para além de Si, da Sua dor, há uma grande multidão de questões, de pessoas necessitadas, uma grande multidão (cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças) que precisa d´Ele. Por isso, cheio de misericórdia, curou os seus enfermos.
Tudo o que faz, não é por sentido de dever…é por compaixão…
"Ao entardecer, os discípulos (estes somos nós) aproximaram-se d´Ele e disseram-lhe: «Este sítio é deserto e a hora já vai avançada. Manda embora a multidão, para que possa ir às aldeias comprar alimento.»"
a. Sentimo-nos pequenos, incapazes, sem condições, no deserto…
b. Às vezes duvidamos e criticamos Deus – a culpa é d´Ele, como permite que isto aconteça ?
c. Ou então criticamos as pessoas: “que irresponsáveis, como não trouxeram comida”… ou criticamos os governantes… “a culpa é dos políticos”…
"Mas Jesus disse-lhes: «Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer.»"
A Sua resposta fascina-nos! Ele expressa e realiza aqueles que são os nossos anseios mais profundos!
“Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer”
Quem de nós, diante dos problemas do mundo não gostaria de poder dizer isto? Quantos de nós não gostaríamos de descobrir soluções, caminhos, respostas para as nossas dores e para os dilemas do nosso mundo?
"Responderam: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.»
Reparem bem na desproporção! Não é fictícia…é mesmo real ! Não é assim também que nos sentimos diante das questões da humanidade?
Voltemo-nos para Jesus, contemplemos cada gesto para que não nos escape nada de importante!
Jesus é diferente!
Qual é a chave? O que vê Jesus que nós por vezes não vemos? Em que acredita Ele? O que faz? Os seus gestos, o que nos apontam de caminho, de possibilidade para nós hoje, aqui e agora?
"«Trazei-mos cá» - disse Ele."
A proximidade dele é tão importante! Precisamos tanto dela!
Jesus não critica e não aponta os culpados. Não explica todos os porquês da dor, da injustiça.
Jesus responde com a vida: não discursa sobre o amor, ama, dá-se, entrega-se, acredita, espera, acolhe, ergue, cura, alimenta…
E, depois de ordenar à multidão que se sentasse na relva, Jesus, delicado, preocupado com o nosso bem estar tomou os cinco pães e os dois peixes, conta com o que somos, mesmo que seja tão pouco, tão pequeno, tão limitado. Jesus não duvida nem um só momento da Sabedoria de Deus e por isso, acredita sempre no Homem. Deus quis, achou bem contar com o Homem para tornar o mundo melhor. Deus, que é Deus, podia não precisar do homem e estalar os dedos e fazer magia – ás vezes era o que queríamos….
Deus tem uma sabedoria diferente, Ele quis contar com o Homem mesmo conhecendo a nossa ambiguidade, mesmo sabendo que as nossas forças são escassas, que somos lentos…
Mas aí onde nós tantas vezes só vemos “deserto”, “impossibilidade”, limitação e fraqueza Ele vê também: Possibilidade, potencialidade, capacidade, riqueza.
"(...) ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção"
Jesus não duvida nem um só momento da Bondade de Deus. Jesus está totalmente convencido de que tudo o que é nosso é de Deus. Tudo o que é dor nossa é também dor de Deus, porque Ele é Pai bom, porque o seu amor pelos homens é mesmo verdade!
Assim Jesus vê-O como um aliado, como Alguém com quem pode contar para enfrentar o problema, e não como o culpado do problema como nós tantas vezes fazemos!
Jesus dá vida “sem se consumir de desespero”
Antes, fá-lo com confiança de que há um Outro que ajusta e completa os esforços pessoais.
Há um outro que é a quem garante que no fim tudo acabará bem, todos terão o Bem que lhes é devido.
Jesus expressa-o uma vez de uma forma muito forte num outro momento quando diz “Ninguém os arrancará da mão do meu Pai”
" (...) partiu, depois, os pães e deu-os aos discípulos, e estes distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram e ficaram saciados."
ESTE É O NOSSO SONHO! É POR ISTO QUE ESTAMOS AQUI
“Dai-lhes vós mesmos de comer” este é o convite que a Verbum Dei aceitou e que nós hoje aceitamos de modo oficial e que vos lançamos também.





